Os famosos “rolezinhos” – encontros, nos shoppings, de centenas de jovens da periferia, convocados pela internet – viraram moda e também assunto de conversas acaloradas com opiniões bastante diversas. Entretanto, com o objetivo de ir mais fundo nas origens do fenômeno, um ensaio do professor e coordenador-geral da Pós-Graduação do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), Alex Rosenbrock Teixeira, analisou o papel da tecnologia e de sua relação com as novas gerações para a explosão de movimentos dessa natureza.

De acordo com o autor do texto, os adolescentes de hoje já nasceram inseridos em um ambiente tecnológico e se familiarizam muito rápido, e de modo mais profundo, com as novas mídias. Em "Rolezinho: uma análise crítica sob o viés da informação e das novas tecnologias de comunicação, como facilitadores de uma mudança cultural", Teixeira mostra como o elo entre essa nova geração, o poder de disseminação da informação com as novas mídias e um dos mais primitivos sentimentos humanos – a necessidade de pertencer – pode gerar fenômenos e comportamentos desconhecidos.

"As inovações tecnológicas no campo das mídias sempre estiveram acompanhadas por um eufemismo quanto ao uso desta ou daquela nova tecnologia para educar a população. Com isso, provocaram mudanças de comportamentos individuais e coletivos nas esferas culturais e sociais", afirma o professor. Segundo ele, os “rolezinhos” são resultados de mais uma dessas transformações. "Os jovens, agora informados e tecnologicamente incluídos, socializam angústias e necessidades diversas, e, por meio da informação e das plataformas de mídias digitais, descobrem, por fim, que não são membros isolados de uma comunidade", explica Teixeira.

Com isso, a análise revela que as tecnologias passam a ter papel fundamental para a nova forma de organização e ação dos jovens – presente durante todo o processo e com função muito maior que a de uma "agenda". Para o autor, à medida que os grupos de adolescentes se encontram, identificam-se, sentem-se parte de um todo, os dados postados e compartilhados adquirem outro significado e relevância. O texto mostra ainda que, ao canalizar essas informações e sentimentos para a organização de uma ação real e representativa, um novo comportamento cultural já passa a existir em nossa sociedade.

ENTENDER PARA AGIR
Segundo a análise feita pelo Prof. Teixeira, o grande desafio da sociedade e das organizações empresariais, em especial os shoppings, é como receber essas mudanças e lidar com elas. Ele acredita que, ao entender o movimento, os empresários poderiam se apropriar da mesma “tecnologia”, identificar características e oferecer ao grupo de “rolezeiros” informações contextualizadas e em sintonia com a realidade desses jovens. "Para auxiliar as organizações a superar os desafios informacionais, há indicativos de que será necessário o desenvolvimento de um sistema de informação estruturado e estratégico, que inter-relacione, além dos dados de agenda dos ‘rolezinhos’, o perfil de cada público, suas motivações e necessidades culturais", sugere o professor, com vistas a contribuir com uma vantagem competitiva para as empresas.

O ensaio "Rolezinho: uma análise crítica sob o viés da informação e das novas tecnologias de comunicação, como facilitadores de uma mudança cultural" faz parte de uma coletânea organizada pelo Instituto Memória – Editora&Projetos Culturais. Em "Diálogos Impertinentes: Rolezinhos", o organizador Anthony Leahy propõe fazer uma discussão, mais científica que emocional, sobre o fenômeno.

Ao reunir textos de dez profissionais das áreas de Direito, Psicologia, Educação e Jornalismo, a obra lança um olhar multidirecional sobre um dos fatos sociais mais comentados no cenário nacional da atualidade. "A ideia, essencialmente, é ser o contraponto da paixão. É fornecer uma visão social e crítica sobre um fato de nossa realidade", explica Leahy.

O livro "Diálogos Impertinentes: Rolezinhos" será lançado dia 25 de fevereiro, às 19 horas, como parte do I Sarau Instituto Memória, no Palacete dos Leões.